Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
VIRGÍLIO MOREIRA. DO REMANSO FAMILIAR AO SEMINÁRIO

 

Virgílio,foi o melhor que se pode arranjar!É linda e anda próxima !

 

 

Foi numa madrugada, de princípios de Outubro (5H30) de 1963, que meu pai me foi levar ao apeadeiro lá no alto das Cimadas, para apanhar a” Medronheira”, nome pelo qual era conhecida a carreira que tinha o seu início nas Corgas e ia, julgo eu, até Abrantes. Escusado será dizer que me acompanhava, aquela mala, parecida com a que as noivas levam com o seu enxoval; envolto à mala ainda ia o colchão, que no meu caso já era feito de folhos de milho e não de palha. Observei o esforço que fazia o cobrador para tentar içá-la para o topo da camionete, puxando-a com um gancho, era um trabalho hercúleo.

O autocarro poucas semelhanças tinha com os actuais, com a dianteira avançada, arrastava atrás os vinte e sete lugares e a subir as curvas de Belver –Gavião, a pé, andaríamos mais depressa.

Escusado será dizer que quanto a comodidade, íamos como sardinha na canastra.

Feitas as despedidas, e que despedidas, (era a 1ªseparação e logo até ao Natal), lá fui, fazendo e desfazendo milhares de curvas, por entre densos pinheirais, lá chegámos por fim a Chão de Lopes, onde se fazia o transbordo para outro autocarro vindo da Sobreira Formosa, depois de horas e horas esperando pelo comboio em Belver e de alguns vomitanços subindo as curvas até ao Gavião eis-nos por fim chegados à Agência da Empresa Claras situada no centro da Vila do Gavião.

 

 

Agora, colocava-se outro problema. Como transportar, as pesadas malas, até ao Seminário? Só a inter-ajuda funcionava e três ou quatro agarrados a uma mala, lá íamos de pouso em pouso arrastando a mala do enxoval até às camaratas.

 

Chegados às camaratas, abertas as malas, feitas as camas, outra etapa aguardava as célebres malas de chapa do “enxoval seminarístico”e que minucioso enxoval? Até uma boina à Che Guevara dele fazia parte, era a etapa que as levava ao sótão onde repousavam até à nossa estadia no Gavião.

Relembro do Gavião, as lágrimas, que chorei deitado sobre a almofada de lã, que a minha mãe com tanto carinho me tinha preparado. Relembro; os jogos da barra ao fundo do recinto., onde havia um limoeiro, as patifarias, que, incitados clandestinamente pelo padre Eusébio fazíamos, como por exemplo, atar umas latas à cauda do cão que naquela altura julgo se chamava “joli”, o que o fazia dar uma valentes correrias corredores adentro batendo contra as portas e paredes o que o fazia andar num rodopio que apenas parava, quando as latas se soltavam, e os baldes de água lançados das camaratas sobre as” velhas” que se colocavam ao sol na escadaria que dava das salas de aula para o recreio. E aquelas encomendas que se recebiam pelos santos onde vinham sempre as guloseimas próprias da época (bolo finto, passas, romãs nozes, etc.) e que se repartiam com os colegas do lado!....

 

 

Do Gavião, ficaram, ainda, os passeios à quinta do Carvalhal e dos Garfos, os jogos de futebol no campo do Gavião e da Comenda, momentos que aproveitávamos para descongestionar o ambiente vivido dentro das paredes do Seminário, mas sempre com um olho no burro e outro no cigano, não fosse o perfeito aperceber-se de algo que para ele era anormal, o que motivaria logo uma chamada ao Director Espiritual

As “polidelas”, de que era objecto o Wolkswagen do padre Manuel, e as pedras que o padre Alberto nos pedia que trouxessemos dos passeios para ter sempre prontas na sua varanda do seu quarto para, qual bala mortífera, atingir os pobres gatos que se atreviam a ultrapassar a fronteira e vinham até ao jardim, rapar os canteiros. E o exame do 2º ano no liceu de Portalegre, com estadia nos quartos do sótão do Seminário com um calor abrasador, ainda hoje ia direitinho à velha sala do liceu, onde fiz as provas orais e onde o tempo de duração das mesmas era controlado pela clepsidra. Quem ainda se lembra?

Apenas apresento estas minhas pequenas recordações do Gavião para que sejam um despoletar a vocês de outras tantas recordações.

Depois, veio Alcains, foi quase como passar do inferno para o céu; as camaratas, já estavam subdivididas em quartos individuais e tudo o resto como era de construção mais recente era melhor.

Quem não se lembra dos cursos “Dominique “ julgo que eram assim chamados, que tinham lugar na Aldeia de Santa Margarida; e aquela greve do silêncio que fizemos, já não me recordo do motivo, mas julgo que tinha a ver com a fraca qualidade da comida, em que andámos uma semana ou mais a jogar andebol e futebol em silêncio, recordo-me bem e uma imagem que me ficou gravada foi ver o meu amigo Sousa sentado no centro da baliza, lado norte, em profunda meditação.

E aquelas distribuições do correio, feitas geralmente no corredor, cartinhas sempre abertas, e o raspanete que se ouvia se porventura a dita cuja provinha da prima, ou similar; rapazinho vê lá o que andes a fazer, juizinho, e às vezes até se ganhava uma visita inesperada ao Director Espiritual.

 

 

 

Dos passeios à Serra da Estrela, recordo, que num deles, os autocarros só puderam ir até á nave de S. António e dali até à torre, fomos “a corta mato”, como levava umas sapatilhas brancas e umas meias azuis, as sapatilhas ficaram da cor das meias. E aquele túnel de neve por onde entrámos, para carregar as baterias no bar da Força Aérea, que naquele tempo, ainda se encontrava de serviço aos radares.

E aquelas provas orais no liceu de Castelo Branco, em que com o meu amigo Valentim e Rafael, por sermos do fim do alfabeto assistíamos às orais de todos os nossos colegas e nós os três, no final, apenas tínhamos como companhia o júri.

E a leitura dos livros de cowboys, debaixo das mantas, à luz da pilha de 4,5 V.O problema era quando, o perfeito, apagada a luz, fazia meia volta, e nos apanhava, com a boca na botija lá se ia o livro e a pilha.

 

NR-O nosso cronista, Virgílio,em palco, Alcains!

 

Aqui ficam algumas das minhas peripécias da minha ida ao Seminário, apesar de um momento ou outro menos bom, teve uma grande consequência a conquista da VOSSA AMIZADE.

 Virgílio Moreira

 

NR

Meu querido Virgílio, sem palavras.LINDO.Obrigado pela viagem. Nem o Virgílio Ferreira, teu homónimo, te chega aos calcanhares!Acho que depois deste teu comovente texto ( sim, não me envergonho da lágrimazita a bailar-me aqui ao canto do olho!) vejo muito mais malta a querer entrar contigo na "caminheta" dos Claras e a subir para a viagem que também vão querer fazer!

Venham mais cinco!

Parabéns, grande Virgílio e OBRIGADO!

antónio colaço

 



publicado por animo às 08:53
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