Terça-feira, 28 de Julho de 2009
NO CORAÇÃO DO NOSSO INTERIOR.O INTERIOR BEM DENTRO DO NOSSO CORAÇÃO
IMG_1647a1

 

Bom, agora a sério.

Meu querido António Colaço. Para tu fazeres o que quiseres envio aquela prosa de que te falei e que mandei para a Reconquista.É extensa e chata, mas aqui vai para quem quiser passar o tempo numa noite de insónias.

Um abraço

Silvério

 a23pordosol

 

A23 no coração do nosso interior. Bem no interior do nosso coração. ac

 

 A propósito de um convívio de antigos alunos dos Seminários de Gavião, Alcains e Portalegre.

                                                         ALGUMAS REFLEXÕES

 

No dia 18 de Julho de 2009 um grupo de antigos alunos que entraram no seminário de Gavião no longínquo ano de 1961 reuniu-se num animado convívio que teve lugar no aprazível Parque de São Lourenço, em Abrantes.

ALCAINS.1964AB

É impossível descrever como se processou o reencontro de cerca de 40 homens, meninos que um dia foram deixados longe das suas famílias e das suas casas, que passaram a viver juntos 24 horas por dia durante alguns anos e, que, de repente, se foram separando ao longo do caminho para só se voltarem a encontrar passado todo este tempo.

Só quem compartilhou aqueles momentos poderá fazer uma ideia da intensidade das emoções, do que cada um sentiu ao comparar as caras que ainda tinha na memória de quem se tinha separado há tantos anos, dos cumprimentos quase a medo que logo se transformavam num efusivo abraço ao amigo ou companheiro de todos os momentos e de que afinal nunca se tinha esquecido, das histórias e episódios que se lembraram, da riqueza da experiência da vida de cada um compartilhada entre todos, das palmas que se bateram, dos poemas que se disseram, das cumplicidades e dos laços que persistem.

18072009382t

 

 

 

 

 

 

 

 

Pode legitimamente perguntar-se o que tem de relevante, a não ser para os próprios, o reencontro de antigos alunos de uma escola, de um liceu ou de um seminário, afinal, igual a tantos outros convívios que ocorrem por todo o país? Vejamos.

 

1. O relevante contributo dos “liceus dos pobres”.

Talvez valha a pena não se ficar pela resposta óbvia à questão colocada e aproveitar o ensejo para umas breves reflexões sobre o papel dos seminários na formação de milhares de jovens portugueses que os frequentaram até há duas ou três décadas atrás, nomeadamente no interior do país. Onde estão essas pessoas, o que fazem e o que podem/devem fazer pela sua região, pelo interior do país?

Alguém disse que os Seminários eram os “liceus dos pobres”, dos jovens oriundos dos meios rurais e das famílias com menos recursos que doutro modo não poderiam enviar os seus filhos para estudar.

É verdade que – já nessa altura o interior era desprotegido face ao litoral – não havia continuidade escolar depois da instrução primária, as escolas públicas se situavam quase exclusivamente nas sedes dos distritos, que a cultura oficial tendia a privilegiar os filhos das pessoas mais influentes e poderosas e que, consequentemente, a ida para um sistema de internato nos seminários era a solução para a pouca oferta do sistema de ensino publico e para a escassez de recursos de que a esmagadora maioria da população sofria.

Porém, quem viveu a experiência de ter estudado num Seminário não pode esquecer-se da excelência do ensino que aí era ministrado, dos bons resultados que se obtinham no denominado “liceu dos ricos” quando lá íamos fazer os exames, mas, sobretudo, da educação cívica e humanista que lá se recebia, do espírito de sacrifício, da disciplina, dos métodos e da capacidade de trabalho que lá se incutiam nos alunos.

É curioso observar que muitas das escolas e colégios que hoje aparecem nos primeiros lugares do ranking da classificação do ensino praticam métodos muito semelhantes aos que os Seminários já aplicavam há muitas décadas atrás.

Gente com muito valor que passou por tais estabelecimentos da Igreja Católica deu e continua a dar o seu contributo ao país nas mais variadas áreas da actividade económico-social, do ensino e da administração pública.

 2. As razões e as consequências do declínio dos Seminários.

São variadas e múltiplas as razões que levaram à quase extinção dos Seminários, as quais não cabe aqui analisar.

Uma das razões pelas quais há hoje muito menos procura destes estabelecimentos de ensino prende-se, naturalmente, com a melhoria da situação económica das famílias, com o alargamento da rede escolar, com a chamada democratização do ensino, com o apoio das autarquias no transporte de alunos, com a própria perda de ritmo e de influência da Igreja Católica, entre outros factores.

Sem deixar de reconhecer estes factores, e não entrando na questão mais profunda da chamada falta de vocações, não deixamos de lamentar o quase abandono a que muitos dos bons edifícios dos seminários estão votados e o ter-se perdido um factor de peso a favor do interior que era justamente a qualidade do ensino que aí se praticava.

Em nosso modesto entender, pensamos que o país, no seu conjunto, perdeu também excelentes agentes, com provas dados ao longo dos anos, para as magistraturas judiciais, para o ensino, para a administração pública, para a carreira militar e para muitos outros sectores da vida nacional. Todos perderam por terem deixado de ter o contributo de muitos jovens que tinham a principal fase da sua formação nesses excelentes estabelecimentos de ensino que eram os Seminários.

3. Temos um dever de gratidão, podemos e devemos fazer mais.

Nestes tempos de superficialidades e incertezas, nestes tempos de mudança para um novo tempo, que esperamos seja melhor, estes encontros não são apenas para matar saudades de um passado longínquo, que não voltará jamais e que não queremos que volte. Estes encontros servem também para fazer alguma reflexão sobre a força que temos e sobre o papel mais activo que muitos poderiam desempenhar em prol do interior, de onde afinal todos somos originários, cada vez mais pobre e abandonado.

Nós que viemos da tal ruralidade onde nada era fácil, nós que não tínhamos as bibliotecas cheias de livros para consultar, nós que não tínhamos nomes sonantes, nós que tivemos de lutar para conquistar a pulso tudo o que obtivemos, nós que tivemos de fazer das fraquezas força, nós poderemos e deveremos agora devolver alguma desta experiência e saber a um meio que bem conhecemos, talvez como ninguém.

Os partidos políticos, os Governos, a maioria dos deputados, as instituições tradicionais em geral foram capturados pelo litoral, pela lógica dos votos, pelos interesses económicos, pelas máquinas do poder.

É revoltante ver as matas cada vez mais destruídas pelos fogos e com elas muitas aldeias e pequenas unidades empresariais que delas viviam. Não podemos calar a nossa indignação ao sabermos que uma pequena parte dos  milhões que são investidos na chamada indústria do fogo daria para as limpar e ordenar e assim evitar que os contribuintes tivessem que suportar esta orgia de esbanjamento de dinheiros que nada resolve e que, como todos sabem, enchem os bolsos de alguns.

Temos que ficar espantados quando o país discute obras faraónicas, projecta mais auto-estradas paralelas umas às outras que já estão às moscas, quando assistimos a manifestações de populações do litoral que não querem mais auto-estradas a passar-lhe à porta, quando existem muitos buracos negros no interior do país onde nem um quilómetro de estrada decente foi feito depois do 25 de Abril.

É certo que restam as autarquias que vão fazendo o que podem, mas não podem ser apenas elas, as máquinas dos ministérios não podem existir apenas para o litoral.

Sabemos tudo isto e por isso é nosso dever não ficar de braços cruzados. Não poderemos fazer grandes coisas é certo, não preconizamos nenhuma guerra entre o litoral e o interior que, de resto, sempre perderíamos. Mas, ao menos, exerçamos o nosso direito à indignação, escrevamos, lavremos os nossos protestos por todas as formas que conseguirmos, utilizemos o nosso espaço de intervenção – e há colegas bem colocados nos aparelhos partidários do arco do poder (olá meu querido amigo António Colaço) – para chamar a atenção para este criminoso abandono de uma parte significativa do país.

Não reneguemos as nossas origens, saibamos utilizar a nossa força, honrar e homenagear, ainda que simbolicamente, todos os que se sacrificaram por nós, os que nos ensinaram, os que não têm voz. Sejamos dignos de nós próprios.

J. Silvério Mateus

PS: A propósito de estradas, temos que reconhecer a nossa gratidão ao litoral por ter tido a generosidade de perder talvez 100 metros de auto-estrada para desviar o dinheiro para dar um arranjinho à estrada entre Vila de Rei e a Sertã. Mil vezes obrigado. No demais, depois de anúncios vários, é mais um Governo que, dando continuidade aos anteriores, chega ao fim sem nada se ver. E, obviamente, não nos referimos apenas às estradas.

________________________________

NR - Título e sublinhados nossos. Aqui como em qualquer lugar, meu caro Joaquim Silvério contas sempre comigo. Esteja eu "colocado" onde quer que seja! Foi sempre assim. Voltaremos à liça! Venham os contributos!

Está aberto o Debate!

antónio colaço


publicado por animo às 16:32
link do post | favorito

De PESTRE LOPES a 5 de Setembro de 2009 às 20:20
Ola, disculpe por as faltas, nunca aprendi a escriver Português!
Queria fazer uma pergunta : O meu pai foi aluno no seminario de Gaviao, entre 1952 et 1954 mais o menos. Ele chama se Joaquim Lopes Pereira Isabelinho. Eu queria saber si existen associaçoes, fotos ou toda documentaçao sobre antigos alunos de este seminario. pois ele fale nos muitas vez de essa epoca.
Agradeço muito si me podem ajudar.
Muito obrigado.


Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



pesquisar
 
Junho 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
14
16
17
18

19
20
21
22
23

26
28
29


posts recentes

ANIMUS DE LUGAR DE ENCONT...

ESTÁ TUDO DITO

ANIMUS O FIM há sete anos...

VEM AÍ A "ANIMUS SEMPER" ...

ANIMUS SEMPER escreve ant...

comasalpcb@gmail.com O E...

O RESPEITO NÃO SE DECRETA...

DAS ELIMINAÇÕES A CAMINHO...

ESTE BLOG TERMINA NO FINA...

NUNCA ACEITAREI REGRAS SA...

arquivos

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

links
subscrever feeds