Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
GLÓRIA AOS IGNORADOS ARTISTAS DA CHARNECA!escreve João Lopes

 

 Caríssimi Colaço
Uma chuva de bênçãos para todos os teus e para o bebezinho da família- Que a protecção do Deus -Menino não lhe falte, Os meus votos de Feliz Natal estendem-se à grande família da animus.

Enviei hoje um conto, se achares que podes publicar!...

Um grande abraço

João Lopes

 

NR-Obrigado, João!

                                             Um lindo conto de Natal

 

 

O Natal é para Horácio Nogueira, como para  a maior parte dos artistas, uma constante temática.

 

Nos seus tempos de missionário em Malange, num dos seus poemas, um menino negro quer saber da mãe o dia em que nasceu.” E a mãe radiante/ Revive em silêncio aqueleinstante/ Supremo e belo em que o dera à luz. (…)O dia não precisa mencionar/ Também de Cristo o dia se perdeu?/ Oimportante é que nasceu.

Em 2000, já em Portugal, escreve: “ Se, para Deus, milénios são instantes/ E a soma dos instantes milhões de anos,/ Natal perpétuo existe nos seus planos(…).

Regressando à nossa Comenda dos anos 53/54, aí encontramos uma das mais belas narrativas sobre o tema, protagonizada pela veneranda figura do “Velho Abegão” da herdade do Polvorão. Homem de trabalho, que, ao longo dos anos, a terra foi ensopando de suor e cansaço, agora, aposentado, dá largas   ao gostoinato da criação artística. O narrador não esconde a sua admiração pela tenacidade e agudeza de espírito exigidas pelo seu cargo de chefe dos ganhões. Mas é sobretudo a alma de artista , pondo um pedaço do seu coração em cada figurinha que das mãos trémulas lhe saía, o objecto supremo do  encantamento deste belo conto de Natal.

De visita ao monte, em meados de Dezembro, o nosso prior vai encontrar o velho artesão, num cantinho do barracão,isolado por uma cancela do bardo, todo concentrado em dar os últimos retoques na imagem de S. José, moldada num pedaço de cortiça. A composição do quadro, tendo por fundo o azul da planície, banhada pelo “ amarelo vivo do sol” traz consigo uma nota impressionista, englobando, no mesmo conjunto, observador, artista e artefacto – três realidades que trocam entre si mensagens unidas pelo mesmo anseio: celebrar a beleza da criação no presépio do Deus - Menino.

Vejamos como no discurso do autor se conjugam esses elementos evocativos da suavidade e”infinita dolcezza” , que os mais fidedignos biógrafos de S. Francisco  gostam de realçar a propósito da feitura do 1º presépio em 1223 na gruta de Greccio.

“ O velho abegão , de óculos a meio das narinas venerandas, (…) levemente debruçado sobre um singelo banco de carpinteiro,, olha arrebatado em atitude de êxtase , o “ seu” S. José.”(p.93). Nesta contemplação, o nosso artesão entra em comunhão mística com o pai adoptivo de Jesus, o qual, ao dar este santo Nome ao filho de Maria (Mt.1,21), o torna “um ser social”( Duquesne,2006) e, simultaneamente, ointroduz na linhagem messiânica do “ filho de David”.

Momentos depois, muda-se o foco da visão para o plano do narrador: “Em bicos dos pés, avanço mais dois metros. Olhando o velho abegão, sinto na alma toda a ternura deste quadro, pintado na mansidão de uma tarde alentejana”(95). Agora, é a vez de o sujeito da narração se envolver emotivamente na cena, partilhando do enlevo e da “postura seráfica” do artista , tentando arrancar da cortiçainforme umaimagem digna e veneranda. “- Desculpe-me em vir interrompê –lo! (…) - “ Não tem que pedir desculpa. O senhor pode entrar.”  Mas eu prefiro continuar fora.(…)

 

Pressinto que, se entrasse,iria macular-lhe o sonho em que estava mergulhado. (…) De joelhos, S. José reflecte, no semblante, algo de misterioso “  comenta o escritor, que, num arroubo de entusiasmo, proclama o valor da obra do humilde abegão e a de todos os artistas alentejanos que, apesar de desconhecidos, enriquecem o espólio da arte popular e tradicional desta província pelas musas abençoada.  “ GLÓRIA AOS IGNORADOS ARTISTAS DA CHARNECA!”  é o grito que sai do fundo do peito do artista – prior!

No dia de Natal, lá está a imagem no presépio do monte, alvo “ dos olhares de todos e de comentários sem conto .S. José deve estar contente por ter nascido na herdade, no meio de tão boa gente  e de lhe terem dado por manto o próprio manto dos sobreiros.”(p.100)—um manto franciscano, digo eu, o qual, na sua  simplicidade, pode tornar-se no símbolo de que o anúncio da Boa- Nova do nascimento do Salvador pode ser feito num sem-número de linguagens culturais de todos os povos da terra.  Mas, nesta obra do P, Horácio,  o “sobreiro”  ganha uma relevância especial, como imagem típica que pontilha e humaniza a própria paisagem.  Dir-se-ia uma personificação do sofrimento ancestral do trabalhador alentejano, despossuído de quase tudo pelos poderes ocultos, que hoje se dizem sistémicos. Uma nota de neo-realismo, vigente na década de 50, subtil e oculta no manto diáfano da arte? Este trecho que pertence à narrativa central” Há Vida na Charneca” (p 74) distingue-se pela crueza áspera da linguagem em flagrante contraponto com o tom dominante do discurso:” (…) cobrindo a Charneca soturna, são os sobreiros de cor baça,(…) Mártires da Charneca! Não sei que sinto ao vê-los, troncos torcidos e disformes, numa quietude impressionante, de aspecto sofredor, martirizados em contorções de braços abertos, rezando sob a imensidão do céu…” O Cristo aqui simbolizado aproxima-se da nossa condição humana!

Depois de todos terem beijado o menino, o piedoso artista fica para lançar um último olhar sobre o seu S. José e expandir todo o amor ardente para com o Deus - Infante, cobrindo - o de beijos.  A tal “ tenerezza” que caracteriza a espiritualidade franciscana! “ O quadro é emocionante: um velho, vergado ao peso de tantas invernias, a deliciar a alma cândida e rude, com uma pequena imagem de Alguém que nunca viu, tomando-a com ternura nos dedos trémulos  e beijando-a docemente, como se fosse de um ente querido!

É, para mim, a maior lição deste Natal.

Cristo não deixa de nascer perenemente nas almas.”(p.101)

Ao ver o seu abegão-artista dirigir-se para casa, “ Leve como um passarinho. Feliz como um santo”,irrompe mais uma vez o clamor poético do padre -artista, num brado que atravessou o céu azul e foi morrer no infinito da planície: 

 “GLÓRIA AOS IGNORADOS ARTISTAS DA CHARNECA!

João Lopes

 



publicado por animo às 00:42
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