Segunda-feira, 30 de Julho de 2012
GALILEU NA PRISÃO E OUTROS MITOS . escreve Mário Pissarra

 

Galileu na Prisão e outros mitos

 

                A Gradiva lançou este mês de Maio um Livro com o Título: Galileu na Prisão e outros mitos sobre ciência e religião, organizado por Ronald Numbers. Não se trata de um livro de Filosofia, de Religião ou sobre religião. É pura e simplesmente um livro de História. O organizador convidou 25 especialistas e cada um aborda um mito. Preferíamos que fossem tratados por lugares-comuns, ideias feitas ou preconceitos, pois a noção de mito, neste contexto é problemática. O que caracteriza estes preconceitos é serem aceites, repetidos, tidos como evidências admitidas sem necessidade de análise, mas que são falsos. Há sempre uma parcela de verdade, mas distorcida para defender teses que convêm a alguns de acordo com as suas crenças e ideologias. Os autores procedem à desmontagem destes lugares comuns tão propalados e que são muitas vezes slogans ao serviço de uma posição, mas cujo valor argumentativo é insustentável. Não há factos históricos que os suportem. Aparecem quase sempre como generalizações abusivas.

                Mas não tenhamos ilusões: não há escrita/leitura, comunicação/receção, palavra ou interpretação sem preconceitos. O distanciamento e a análise histórica permitem vencer alguns, mas torna-nos prisioneiros de outros. O mal não está nos preconceitos, mas na falta de abertura de espírito para os analisar e por em questão. A segurança destas pseudoverdades é frequentemente preferida à dúvida e à incerteza.

                Contudo, a simples enumeração dos «mitos» nos chama a atenção para a necessidade de contextualizar o tema abordado no ambiente e na realidade social americana. Muitos daqueles «mitos» nunca fizeram sentido nas sociedades europeias. Veja-se, a título de exemplo, os que se referem direta ou indiretamente ao ensino da teoria evolucionista nas escolas públicas ou os que foram dirimidos em tribunal (15,16, 17, 18, 19, 20, 23 e 24). A sociedade norte americana está profundamente marcada pelas diferentes religiões, derivadas dos inúmeros movimentos proféticos e pelo seu radicalismo/fundamentalismo assente na interpretação literal da Bíblia. Aliando este fator à educação escolhida pelos pais potenciou-se uma incessante querela sobre a ciência e a religião centrada sobre: a) proibição de ensinar a teoria de Darwin (evolucionismo); o criacionismo ser uma teoria científica ou não; a reclamação de cientificidade de teoria do «design inteligente»; o direito de a família podere intervir nos conteúdos «científicos» do que é ensinável numa escola pública. As confusões são evidentes. As questões científicas e religiosas não são comensuráveis pelos mesmos critérios e muito menos, qualquer delas se dirime pelo recurso aos tribunais.

                Estaremos nós imunes a estas questões? Naturalmente que não! Os norte-americanos exportam as suas opções religiosas como quem exportam qualquer outro produto. Por vezes consideram-nos totalmente ignorantes, esquecendo que nos estão a «impingir» um produto, cuja matriz foi levada da Europa. Na religião, como em tudo, está subjacente uma forma de atuar básica: a força, o dinheiro, a manipulação (tele-evangelismo) removem todos os obstáculos. Esses produtos estão a ser «vendidos/impingidos» pelas ruas de Abrantes. De modo mais refinado e em nome da ciência em Institutos e em universidades.

                O livro não adota qualquer posição sobre as relações entre religião e ciência (concordismo, incompatibilidade, exclusão, concordância ou complementaridade, etc.), pois limita-se a analisar separadamente cada um dos «mitos». Apresenta-se a lista dos mitos e é fácil constatar que cada afirmação traduz uma posição extrema. Por isso não merecem a concordância de qualquer pessoa sensata e minimamente informada, mas isso não pode servir de alibi para esconder as dificuldades reais quer históricas quer atuais da relação entre a ciência e a religião. Não podemos esquecer que quer a Ciência quer a religião procuram dar respostas a perguntas feitas pelos homens. Contudo não é menos verdade que as respostas encontradas também são de homens. Nesse aspeto merece cuidada reflexão a posição de Einstein frequentemente instrumentalizada (mito 21).

                Aconselharia a ler este livro e a pensar sobre estes 25 «mitos». Haverá toda a vantagem em descontextualizar alguns e relativizar a sua importância.

1.- A ascensão do cristianismo foi responsável pela morte da ciência antiga.

2.- A Igreja medieval impediu o desenvolvimento da ciência.

3.- Os cristãos medievais ensinaram que a Terra era plana.

4.- A cultura islâmica medieval foi hostil à ciência.

5.- A Igreja medieval proibiu a dissecação humana.

6.- A teoria de Copérnico desalojou os seres humanos do centro do cosmos.

7.- Giodano Bruno foi o primeiro mártir da ciência moderna.

8.- Galileu foi preso e torturado por advogar a teoria de Copérnico.

9.- O cristianismo gerou a ciência moderna.

10.- A revolução científica libertou a ciência da religião.

11.- Os católicos não contribuíram para a produção científica.

12.- René Descartes criou a distinção mente – corpo.

13.- A cosmologia mecanicista de Newton eliminou a necessidade de Deus.

14.- A Igreja denunciou, com fundamentos bíblicos, a aplicação de anestesia nos partos.

15.- A teoria da evolução orgânica baseia-se num raciocínio circular.

16.- O evolucionismo destruiu a fé de Darwin no cristianismo – até aquele se converter no leito da morte.

17.- Huxley derrotou Wilberforce no debate sobre evolução e religião.

18.- Darwin aniquilou a teologia natural.

19.- Darwin e Haeckel foram cúmplices da ideologia nazi.

20.- O caso Scopes terminou em derrota do antievolucionismo.

21.- Einstein acreditava num Deus pessoal.

22.- A física quântica demonstrou a doutrina do livre-arbítrio.

23.- O «design inteligente» representa um desafio científico para a evolução.

24.- O criacionismo é um fenómeno exclusivamente americano.

25.- A ciência moderna secularizou a cultura ocidental.

In Nova Aliança

Mário Pissarra



publicado por animo às 21:32
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