Domingo, 21 de Abril de 2013
O QUE FAZEM OS FILHOS QUE FIZEMOS.escrevem Zé Pedro e o filho Francisco Pedro

Francisco Pedro, Dina e o Zé Pedro.

 

Amigos,

 

o jonal i publicou, na edição deste fim-de-semana, uma reportagem do Francisco. Tem chamada na 1.ª página e é capa do suplemento LIV  "Bateau stop. À boleia, de barco em barco". No interior é que estará o título original "À boleia do vento / Lugar a bordo para chegar ao mundo pela porta do mar".

 

Dizia-nos ele, em mail recente:

"Mochila as costas e ao improviso, lá vou fazendo umas incursões no jornalismo. (...) Envio-vos a ultima reportagem que escrevi. Através de outros mostra um pouco dos últimos meses da minha vida."

 

Não a encontrando disponível no ionline, anexo uma primeira versão da mesma reportagem já publicada noutros locais (ainda que sem a revisão final e as fotos).

 

Ainda a escreveu na Martinica, de onde partiu, mais uma vez, à boleia do vento. Ainda andará (?) pela Venezuela, aonde chegou uns dias antes das eleições.

 

Abraços,

Zé Pedro

 

TÍTULO: à boleia do vento 

 

ENTRADA:

Recusam o avião, partem sem pressa. Todos os anos, centenas de jovens de mochila às costas surgem pelas marinas de Lagos ou de Cascais, de Gibraltar ou da Bretanha, das Canárias ou de Cabo Verde. Procuram uma boleia – uma boleia a bordo de um veleiro, que os leve ao outro lado do oceano. Retrato desta nova tribo nómada, a povoar um meio que há décadas junta elites endinheiradas e loucos aventureiros

 

 

TEXTO:

Novembro 2012, longitude 15° oeste

Termina a época dos ciclones no Atlântico, começa a das travessias: o mar das ilhas Canárias fervilha de veleiros. Junto a marina de Las Palmas, entre os maioritários polos e sapatos de vela, há jovens de mochilas e instrumentos de música as costas. Caminham quilómetros pelos pontões, nadam até aos barcos ancorados: “Bom dia! Por acaso vão atravessar o oceano? Precisam de tripulantes?”

“A boleia de barco consiste em perguntar às pessoas que têm veleiros se gostariam de te embarcar, em troca de que tu ajudes na navegação, facas pequenos trabalhos, tomes o leme, cozinhes”, explica Berta, uma catalã de 22 anos. Cabelo curto, olhos brilhantes apontados ao lado de lá do oceano. Cansada das grandes cidades, Paris, onde estudou literatura, Barcelona, onde cresceu, “tinha esta ideia de partir, fazer uma grande viagem. A boleia és super livre. A qualquer momento podes dizer 'hoje ponho-me a procura de um barco para outro lugar'. E, se não tens dinheiro, abre-te uma possibilidade de viajar.”

Todos os anos, por esta altura, são centenas de jovens como Berta que surgem pelas marinas de Lagos ou de Cascais, de Gibraltar ou da Bretanha, para procurar uma boleia para atravessar o oceano. E é aqui, nas Canárias, que todos os caminhos se cruzam. “Las Palmas é um pouco louco. Tornou-se a Meca da boleia de barcos”, conta Manon, jovem austríaca de cabelos loiros, que com o seu companheiro Adrien, embarca numa viagem que os levará a Cuba. “Sabíamos que se tinha tornado super popular nos últimos anos, porque toda a gente fala disso. Mas quando chegámos ficamos chocados: havia hordes de viajantes a boleia. Dissemos 'uau, nunca conseguiremos encontrar um barco.'”

Para Alexis e Flo, irmãos de 28 e 24 anos que fugiram ao mau tempo parisiense para descobrir a América do Sul, a busca dura já há um mês. “Temos todos algo em comum, mas um sem fim de trajetórias diferentes. Há gente de todas as nacionalidades, velhos e novos, mais ou menos hippies, pessoas ricas, da classe media, ou cujos pais nunca tiveram dinheiro...”

O 'bateaustop', como foi batizado em francês, faz-se em qualquer parte do mundo onde haja veleiros e não é um fenómeno de agora. “Já o meu pai e o meu tio navegavam a boleia. Mas era diferente: era algo mais entre marinheiros, havia muito menos gente. Acho ótimo que haja tanta gente, porque abre o meio a outras pessoas”, conta Quentin. Cabelos compridos soltos, pequeno Mogli dos mares, cresceu a bordo de um veleiro, e procura agora um barco para ir ter com o seu irmão a Guadalupe. .“Mesmo que tenha sempre havido os ricos, com os barcos super belos, antes havia sobretudo aventureiros. As Canárias e as Caraíbas estavam repletas de viajantes. Hoje a maioria são velejadores de férias ou reformados, que ficam pelos bares das marinas. Os viajantes a boleia trazem esse espírito de descoberta, de aventura”.

Há capitães que aproveitam para exigir uma contribuição para a caixa de bordo que vai muito alem das despesas da viagem: dez a quarenta euros por dia. A partir de janeiro, haverá cada vez menos barcos a atravessar. Há quem desista, há quem faca novos planos.

“Mesmo havendo muita gente, a procura não se torna competitiva, há muita entre-ajuda. Todos partilham os seus planos: 'vai ali, há este e aquele barco'”, contam Alexis e Florian. Dezenas de jovens viajantes ocuparam um enorme hotel abandonado, voltaram a dar-lhe vida e uma gestão coletiva, para que possa acolher quem precisa. Partilham cigarros e canções, sonhos e saberes. Partilham o prazer de partir sem pressa. “E”, admite Alexis, num sorriso, “toda a gente acaba por ter sorte”.

 

Dezembro 2012, longitude 30° oeste

Alexis imaginara-se na América Latina pela altura do seu aniversário. A previsão falhou uns meses. Os dois irmãos e o casal de reformados que os embarcou estão sentados na proa, especialmente decorada. Há bolo e ementa especial. Mindelo )com muitos veleiros e de jovens a boleia) e as ilhas de Cabo Verde desaparecem lá onde nasce o sol. O imenso azul toma conta da paisagem. Sem aviso, chega a chuva torrencial.. “Ali continuamos meia hora, de t-shirt e calções, encharcados, a comida transformada em sopa. Felizes, como crianças!”

“A viagem começa logo com a felicidade de ter encontrado um barco, de finalmente deixar Las Palmas. Partir, avançar, deixar a Europa!”, diz Alexis. “É uma alegria que não ha quando ando a boleia em terra: subo a um barco e ja estou feliz, só por navegar”, conta Berta. “Entrar no barco de alguém é como entrar na sua pequena cabana. Está cheio de fotos, livros, historias das viagens.” Manon, habituada a correr as estradas do mundo á boleia, lembra que num barco “há o aspeto psicológico de passar imenso tempo com alguém, num espaço super confinado, e de se por a sua disposição”. Ela e Adrien, com dois outros “bateaustopeurs”, seguem no no iate de um rico empresário francês, que cedo se revela “um capitão um pouco ditatorial”: “tínhamos todos medo das suas intensas flutuações emocionais”.

Como a maior parte dos que atravessam a boleia, nenhum deles tinha alguma vez navegado. “Não conhecia absolutamente nada. Nem sabia se enjoava ou não. É uma descoberta de A a Z, é super excitante.”, conta Manon. Descobrem Tabarly e Moitessier e deixam-se inspirar pelos grandes velejadores. A experiência desperta paixões, por vezes para a vida.

Para Manon e Adrien, mais do que um sonho antigo, viajar assim era uma escolha óbvia: não tinham dinheiro para viajar num cargueiro, e há muito que recusam o avião. “Quando sabes que há um verdadeiro problema de emissão de CO2 e continuas a viajar de avião só para teu próprio prazer, é algo tão egoísta, e tão desprezante em relação a todos os que não o podem fazer e que sofrem as consequências das alterações climáticas. O avião é um dos últimos marcadores das injustiças sociais ao nível do planeta: nós temos a sorte de apanhar aviões super baratos, um privilegio dos super ricos. Os aviões vão dos sítios dos ricos (Paris, Londres e Frankfurt) aos sítios dos pobres, não ao contrario.”

“De avião estás muito mais enquadrado, há meses que sabes que vais chegar no dia tal, a hora tal, ao sitio tal”, acrescenta Quentin, “assim tudo é imprevisível.” “Quando vês uma ilha aproximar-se, a terra a vista, é de loucos”, explica Alexis, “contas os dias e as horas.” “Quando recusas apanhar o avião e vais pela terra ou pelo mar, isso faz-te descobrir e compreender tantas outras coisas, sobre a história, a geografia... vês outra coisa”, diz Manon. “Para mim é impressionante estar a fazer um trajeto que é tão marcante historicamente: a rota da colonização, das conquistas, do esclavagismo.” No mesmo oceano, a mesma rota: outrora feita para expandir o império, para conquistar, hoje para escapar ao império do consumo, para descobrir outras paisagens e formas de viver.

 

 

Marco 2013. longitude 60° oeste

Le Marin, na Martinica, é a maior marina das Caraíbas. Os bares, repletos de gente, tem as paredes repletas de anúncios. Dominica, Colômbia, oceano Pacifico, Europa... Há barcos a partir em todas as direções – e jovens desejosos por um lugar a bordo. Ponto de encontro daqueles que conseguiram chegar a este lado, palco de reencontros efusivos entre 'bateaustopeurs' que se tinham cruzado nas Canárias, em Cabo Verde, noutras ilhas das caraíbas, semanas ou meses antes. Partilham-se histórias impressionantes das travessias.

Há Jean François, o guitarrista e geólogo suíço de 70 anos, um experimentado das boleias de barco. Os dois jovens do Quebeque, que, sem nunca terem navegado antes, descobrem que se safam melhor do que o capitão, que acaba por lhes confiar o barco e dinheiro para o levarem ate ao Canadá – as grandes navegações não eram para ele. Há Patt, australiano descendente dos famosos revoltosos do Bounty, que deu boleia a quinze jovens a bordo do seu catamaran. Há Julien, músico e palhaço cansado de uma vida de digressões pela Europa, que quer percorrer sozinho a Amazónia de canoa.

Berta juntou-se a Alexis e Flo. Faz dois meses que descobrem a Martinica a boleia. Montaram uma pequena cabana a saída da marina. Fazem artesanato com sementes locais, que vendem aos turistas. Vivem da comida que os supermercados e os barcos-charter atiram fora. Procuram um barco que os leve a Colômbia ou Venezuela. “Não é porque nao tens dinheiro que ano podes fazer uma data de coisas. Mas è preciso ousar fazê-las. Não ter vergonha de vasculhar nos contentores do do supermercado, fazer refeições de legumes recuperados, dormir nas praias ou em casa de pessoas que te convidam”, explica Berta.

“Os habitantes habituaram-se a que os brancos sejam turistas, americanos ou franceses, e veem te logo como uma carteira. Eu procuro mais o contacto com as pessoas, ou simplesmente com o espaço e as possibilidades que ele dá. A agricultura, a pesca, tudo isso me interessa. Quero descobrir como se faz aqui. Enquanto que há uma data de turistas que vêm simplesmente para se desconectar do seu trabalho. O facto de não teres muito dinheiro, de te verem assim, de dormires nas praias, aproxima-te das pessoas daqui. Seria diferente se eu chegasse com o meu 4x4 e as minhas roupas a 80 euros a peça.”

“As pessoas que vieram de avião, tens impressão de que não chegaram sequer a descer do avião, a dar-se conta de que estão aqui. Nós navigamos, apanhamos as ondas, num ritmo mais livre, mais perto da cultura das Caraíbas”, diz Adrien: “Chegar às caraíbas de avião”, acrescenta o jovem arquiteto, “é como se entrasses pela chaminé. A porta aqui é o mar!”.

Manon e Adrien conheceram Quentin e juntaram-se os três numa aventura inesperada: compraram em conjunto um velho veleiro. Fazem incursões nos barcos que se afundam abandonados nas imediações da marina para recuperar todo o tipo de objetos. Dos contentores dos supermercados enchem as provisões de bordo. Se estão a zeros de dinheiro, transbordam de excitação.

Hoje é o aniversário de Manon e é a primeira navegação, ao longo da costa martiniquesa. A estreia junta Alexis, Flo, Berta, Quentin, Adrien e Manon. A saída do pontão, veem-se refletidos no super yacht de Bill Gates, também por ali de passagem. Mais tarde, sob as estrelas, partilham histórias e canções no cockpit. O barco avança no mar das caraíbas. Outrora povoado de piratas, dissidentes dos impérios europeus, hoje povoado destes nómadas de mochila as costas, dissidentes da sociedade do consumo-trabalho, que pilham os contentores dos supermercados, conquistam o tempo, e tem por tesouro a aventura.

“Pode ser visto como um luxo: dar-se todo o tempo que nós nos damos, procurar todas as complicações que procuramos, só para andar a boleia de barco, quando podíamos simplesmente apanhar um avião. Mas quer dizer tantas outras coisas, viajar desta forma...”, diz Manon. “Mudei verdadeiramente a minha noção do tempo,” confessa Alexis. “O barco avança super lentamente, para o encontrar demoras montes de tempo. Há semanas que estamos a procura de um barco para América do Sul. Se eu tivesse esperado cinco minutos pelo meu metro estaria bem mais enervado”

“Aprendemos a não ter pressa, a desfrutar da beleza dos sítios onde estamos.”

“Quando alguém nos pergunta se estamos de férias, dizemos não”, diz Alexis. “Estamos de viagem.” Porque? “As férias são só uma pausa no teu tempo de trabalho”, explica Manon. “Para nós”, atira Quentin do fundo do barco, “o tempo de trabalho é uma pausa nas nossas vidas”.

 

Francisco Pedro

 

LEGENDAS

1 Deixar-se arrastar pelo Mar das Caraíbas

2 “Procura-se embarcamento”: as paredes dos bares da maior marina das Caraíbas enchem-se de anúncios

3  Alexis, Flo e Berta passam dias junto a entrada dos pontoes, para meter conversa com os capitaes de barcos que por ali passam. No cartaz “cherche bateau”

4 O momento em que Alexis, Flo e Berta encontram a sua boleia para a Venezuela, após dois meses de procura na Martinica.

5 à saída da marina os seis amigos veem-se refletidos no super yacht de Bill Gates.

6 “Chegar as caraíbas de aviao é como entrar numa casa pela chaminé. A porta aqui é o mar!”, diz Adrien, recém licenciado em arquitetura.

7, 10 De viajantes à boleia a proprietários de um veleiro: a estreia do barco junta os seis amigos

8 “A boleia és super livre. A qualquer momento podes dizer 'hoje ponho-me a procura de um barco para outro lugar'”, diz Berta

9 “Hoje sao os viajantes a boleia que trazem ao meio da vela esse espírito de descoberta, de aventura”, diz Quentin, pequeno Mogli dos mares.

 



publicado por animo às 01:34
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1 comentário:
De José Centeio a 25 de Abril de 2013 às 12:16
Aprendemos a não ter pressa
Se um dia alguém me propusesse tal aventura, mesmo nos meus tempos de maior loucura e irresponsabilidade, eu diria que se não eram loucos seriam doidos varridos. Além disso, sofro desse mal terrível que é o enjoo. Boleia de barco?! Estes jovens devem estar loucos. É verdade, são mesmo loucos, mas uma loucura saudável, de fazer inveja a quem o tempo já não permite tamanhas aventuras. Como eu desejaria, neste mundo tão agitado, aprender a não ter pressa, a ter a paciência e dar-me o tempo para desfrutar da beleza dos sítios por onde vou passando, usufruir da vida e não dos adereços que a vida nos dá. Fica-me uma dúvida, uma preocupação: será que o trabalho, enquanto acto criativo não faz parte da nossa vida? Será apenas uma pausa nas nossas vidas? Bem sei que o trabalho se transformou em emprego, deixando para trás outras utopias. Hoje as loucuras, as utopias, são outras, bem diferentes. Mas eu sou daqueles que acredita - a cada um as suas utopias - que estas boleias feitas de encontros e reencontros entre gente de vários mundos é também caminho para um MUNDO melhor e mais justo.
Obrigado, Francisco, pelas tuas aventuras de repórter. Pela parte que me toca, a tua escrita faz-me bem à alma que, na minha forma de resistir, continua a recusar vender-se aos demónios deste mundo. Um abraço, estejas onde estiveres. Um abraço para todos os que encontrares e contigo se cruzarem. Diz-lhes que neste pequeno cantinho há gente que acredita na sua grande generosidade.


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