
O Manuel Carrilho é o segundo a contar da direita na primeira fila.

O nosso Manel, há quase 11 anos - como o tempo passa, Manel - e de quem esperamos as belíssimas prosas que então nos habituou e que um destes dias nos prometeu.
Até lá, e como aperitivivo para Alcains2010, respigamos da edição da então revistinha "Semen" , editada pelo pessoal de 1963, logo após o encontro de Março de 2000, na Ericeira, este naco de prosa do Manel que nos parece não se esgotar no pessoal de 1963.
Ora leiam:
Talvez porque tenha uma memória refinada ainda me lembro de quase tudo e de todos.
Começando por ti, caro amigo Colaço.
O Colaço era um puto mimado, mas galhardo, folgazão e escuteiro como eu e que quando íamos jogar futebol ao campo do seminário ou do Gavião se “tresmalhava” e se entretinha a moldar figurinhas de barro( ovelhinhas, etc). Eras um indivíduo com um sorriso largo e aberto, mas se bem me lembro tanto tinha de brejeiro como de tímido. No entanto, tivemos as nossas guerras na sala de escuteiros anexa a uma sala de aulas, onde o Pe Eusébio nos tentava educar a voz naqueles coros desafinados...
“Vamos lá outra vez!”, dizia ele.
E nós, “Senhora do Almurtão...Oh minha linda Senhora, Virai costas a Castela...
Bom, voltando às recordações, tinha e tenho (mas onde?) uma foto da equipa de futebol que num célebre domingo derrotou a equipa principal do Gavião por 5-2.
Mas recordo-a aqui:
Aníbal, Luciano, Pe Sebastião, Severino, Carrilho, Romão(?) Duque, Álvaro, Pe Eusébio, Duarte, Horácio (?)
Golos de :Duque,2, Carrilho 1, de recarga, Pe.Eusébio1 e o outro foi o Álvaro ou o Pe Sebastião, mas penso que foi o Álvaro.
Enfim uma dúzia de garotos, sub- nutridos..
Lembras-te daquele arroz com cavalinhas de conserva?
E aquelas sopas “maravilhosas” onde tínhamos que retirar alguns “piolhos” da couve?
Fruta? Está quieto! Fomos uma vez encher a pança de laranjas caídas, à Quinta dos Garfos(?) porque tocar nas das árvores nos era vedado.
E o cheiro daquele leite em pó, mais aquela manteiga com um quarto de pão pequeno?
E as repreensões ?E as cartas para a família que tinham que ser lidas no caso de saírem e abertas no caso de entrada?
E aquele “ criado”, o João, a mostrar-nos o esqueleto das diversas ratazanas onde armazenavam o leite em pó e diversos?!
E as “cachaçadas” do Pe. Alberto?
E aquele tique do Pe. Emílio?
E a brutidade do Pe João Velez?
E aquele “polivalente”, mas sacana,do Pe.Eusébio?
E o Pe Manuel? E o Pe.Aníbal (Director espiritual).E o Vice-Reitor, João da Rosa Velez,”bicho sabido” que ainda me recordo das suas palavras no primeiro dia de entrada:
-“Meus filhos vocês foram escolhidos para uma missão divina! Muitos de vocês ficarão pelo caminho, etc, etc.
E.....? E.....?E....? Tanta coisa que daria para encher páginas.
Continuando com os homens da equipa que referi atrás, avanço com :
O Aníbal, fazia uns estiranços e uns voos do caraças mas de vez em quando era cada frango!...
O Severino, de Tolosa, que mais tarde encontrei na tropa, era pequeno mas raçudo e era difícil passar por ele.
O Pe Sebastião, alto, de nariz adunco, calmo e um bom conselheiro, comandava a defesa.
O Luciano era um indivíduo calmo e era um bom amigo.
O Duque era um jogador de tomates! Era um jogador que nunca virava a cara à luta chegando mesmo a ser agressivo e , nessa altura, malcriado: “Ó pá vai para o caralho,então não vias que eu estava sozinho?”, dizia-me, entre outras coisas.
Enfim, ia a todas.
O Pe Eusébio com as suas botas de futebol – que o Zé Maria engraxava – era o chefe da banda, refilava com todos, lá tinha umas fintas que lhe saíam bem e até espumava quando lhe tiravam a bola. Bom coleccionador de notas de 20.00 – folhas de alface com a esfíngie de Stº António – lá nos ia engatando algumas daqueles parcos haveres que os nossos pais nos mandavam.
O Horácio...parece-me que o estou a ver...botas cardadas com uma corrida rápida.
O Romão? Se é o que eu penso era bastante bom.
O Álvaro, cabelos castanhos, aloirados, escorridos, era assim, se bem me lembro, bom jogador mas um pouco egoísta...
O Duarte era um bom jogador, fintava bem, cabeceava bem, no entanto, queria a bola só para ele e era um pouco molengão..” Ó meu anjinho, mexe-te”!!!, gritava-lhe o Pe.Eusébio.
Eu,Carrilho, que me analisem os outros, no entanto, digo esta do Pe Eusébio, e ainda não se falava muito dos alentejanos..” Vê-se mesmo que és alentejano! Para mexeres um pé, tens que pedir licença ao outro”.
É verdade: Então esse “chaparro” do José Maria, com quem trabalhei na Teixeira Duarte, não foi capaz de te dizer quem eu era?
Muitos não se recordarão de mim, o que é natural, porque só estive no Gavião.
Fui expulso, corrido, chama-lhe os nomes que quiseres, por ser rebelde e como tal não tinha a chamada “vocação”!!! Agora sou um cidadão normal, com 48 anos, Agente Técnico de Engenharia e Arquitectura. Tenho uma mísera pensão de sangue por ter sido ferido no tal 11 de Março e desenvolvo a minha actividade profissional de desenho de arquitectura – moradias e diversos – sobretudo aqui no Nordeste Alentejano onde também estou ligado ao projecto de elevação de Marvão a património mundial.
A terminar, a propósito do “Sémen”, uma palavra dúbia que não nos ensinaram no seminário, no entanto, e como conservo ainda o dicionário de latim que me “enfiaram” nessa altura – e que custou 60.00! – diz o seguinte:
-SÉMEN ,inis –Raiz de que provem semente, grão, semente de...Fig. semente, germe, princípio, etc.
A propósito, também espalhei a minha semente pois tenho um filho com 25 anos e uma filha com 21.
Não sei de quem foi a ideia da palavra mas não tenho dúvidas que tudo isto pode ser o princípio e a semente de novas ideias para o futuro.