Quarta-feira, 25 de Maio de 2016
DA FESTA DAS PAPAS DE ALCAINS OU A EXALTAÇÃO DE FLORENTINO CONTRA OS HISTORIADORES INCENSADOS escreve Mário Pissarra

 

Castelo Branco (I)

 

  1. Gostaria de começar por felicitar todos os que trabalharam para o Encontro de Castelo Branco, principalmente os que estiveram no terreno (Florentino, Eusébio e Alexandre) bem como a Comissão. Registo também com agrado a escolha de Marvão para o Encontro do próximo ano, não só pelas suas belas paisagens, interesse histórico, mas sobretudo, pelo seu alto valor simbólico para muitos de nós.

 

  1. O ano passado no Encontro adquiri o livro do Florentino Restauração da Diocese de Castelo Branco. Li-o e considerei que nem quem o escreveu nem quem o estava a ler eram neutros e, por conseguinte, totalmente imparciais. É muito visível na escrita que o Florentino foi/é simpatizante da restauração. Relativamente ao tema em questão no livro, a única coisa que sempre me incomodou foi a mentalidade de senhor feudal por parte de alguns bispos (Portalegre e Castelo Branco não foi caso único). Não me eram estranhas as lutas referidas na obra. Assisti a uma defesa cerrada e acérrima da restauração por parte do Pe. Manuel, pároco de Rio de Moinhos e tio do João Oliveira. Lembro me de ouvir falar de algumas consequências para sacerdotes partidários da restauração. O exemplo mais badalado era o do Pe. Cabral que tinha a sua actividade pastoral em Castelo Branco e era natural de Alcafozes.

Este ano no final do Encontro, mesmo ao sair, o Florentino ofereceu-me A Festa das Papas de Alcains. A sucinta apresentação do João de Oliveira – exemplar em respeitar o seu tempo, mas com dificuldade em regular o tempo de outros – despertou a minha curiosidade. Quando procurei a obra em cima da mesa indicada já lá não havia nenhum exemplar. Não houve tempo para trocar impressões com o autor sobre a obra, mas quando cheguei a casa ao fazer o registo do livro, folheei-o e comecei a ler. Por razões várias, o serão de Sábado e o dia de Domingo proporcionaram-me agradáveis surpresas e recordações em diálogo com o livro do Florentino. É desse diálogo com o Florentino – mediado pelo livro -- e comigo próprio que vos passo a dar conta.

  1. É digno de registo o português correcto e escorreito, coisa de admirar nos tempos que correm. Apenas dei por um erro ortográfico e uns pequenos problemas de transliteração devidos à inserção de uma fotografia. De louvar também o cuidado gráfico, a qualidade do papel e das fotografias. Empurrado pela escrita, a riqueza da informação, a clareza e rigor da exposição e a apetência e conhecimento de alguns dos temas tratados não descansei enquanto não terminei. Não posso deixar de sublinhar a prudência das conclusões propostas e a hábil manipulação do questionar e sugerir hipóteses. Esta humildade sófica não abunda em muitos trabalhos no âmbito da história local. A preparação teológica do Florentino foi uma ferramenta habilmente manejada ao serviço da qualidade da obra produzida.

 

  1. Torna-se clara, desde as primeiras páginas, a ligação entre a festa das papas e a promessa de uma comunidade de crentes a pretexto de uma praga de gafanhotos.. Por outras palavras, os bodos resultam de promessas de uma comunidade e só podem ser tratados como fenómenos sociais globais e nunca estaremos perante a problemática das promessas individuais. É verdade que há algo de comum entre a promessa individual, normalmente decorrente de situações/momentos/problemas difíceis da vida e a promessa duma comunidade, decorrente de um problema colectivo que a todos aflige. Neste momento da leitura, veio-me à memória um episódio familiar da minha infância. Ao jantar, a minha mãe anuncia que tinha prometido uma fanega (4 alqueires) de trigo à Sra. da Graça se as oliveiras do chão pegassem todas. Eu tinha andado a ajudar na plantação das árvores e estava informado sobre o preço das estacas. Espontaneamente, exclamei: que grande negócio! Mentalmente fiz a conta e acrescentei: qualquer meia dúzia de estacas pagam uma fanega de trigo! Fez-se um silêncio sepulcral e ninguém mais tocou no assunto.

Quando cheguei à p. 107, ao falar do concelho de Proença-a-Nova, tropeço com a frase: «para a sua concretização, todos os habitantes desta povoação contribuíam com um “celamim” … Nunca tinha encontrado esta última palavra escrita, mas a minha mente é invadida por mil e uma peripécias da e com a minha velha vizinha, a ti Carmo do Marcos (o marido). Sempre a conheci já avançada na idade, passava o tempo, pela mais pequena diabrura, a ameaçar-nos com a «polúcia». Gabava-se de ir ao açougue comprar um «arrátel» de carne e vendia «celamins» de feijão e castanhas que trazia do troco. No inverno, ia para a terra fria ao troco numa carroça puxada uma parelha de machos, levando louça e trazendo, batatas, feijão e castanhas. Da Idanha chegavam a ir à Guarda de burro ou carroça. Deliciava-me ao ouvir a resposta ao perguntar-lhe: quantos anos têm, ó ti Carmo? Um moio (60), mais vinte e duas fanegas (8), respondia. E quando nasceu: no mês das sementeiras. Quem não conhece a vida agrícola e os seus ciclos não pode fazer uma leitura penetrante e compreensiva do livro do Florentino.

 

  1. Esta obra do Florentino é um hino à metodologia preconizada pelos defensores da especificidade das ciências do espírito que opõem às ciências da natureza. O cerne da distinção: as do espírito são sintéticas e privilegiam o tempo enquanto as da natureza são analíticas e centram-se na matéria. Enquanto o que é material se explica dividindo e atomizando, os fenómenos sociais ganham maior compreensão à medida que os factos sociais, neste caso – o bodo ou festa das papas – são inseridos em círculos mais largos e amplos, abrindo a novos horizontes de significado e captando o evoluir desses fenómenos através do tempo. É a dimensão da temporalidade – a historicidade invade tudo o que é humano --, e a dispersão pelo espaço geográfico da beira, dos templários, dos franciscanos que nos permite compreender as múltiplas dimensões e nuances dos fenómenos, descobrindo traços de união e familiaridade. O mesmo se diga relativamente aos elementos pré-cristãos, às práticas judaicas, aos cultos do espirito santo, às romarias e à história da igreja e à teologia. É este o verdadeiro significado de compreender: prender com = ligar, articular = preensão com a mão do pensamento, dando-nos a inteligência (intus+legere) das coisas. Este procedimento metodológico, manejado com grande mestria, permite não matar as particularidades das festas de Alcains, mas ligá-las a outras unidades de significado, ampliando e contextualizando a sua significação. Concretizando melhor: o Florentino faz da festa das papas o fio condutor, sempre presente e a ser chamado a terreiro, mas inserindo-as na origem dos bodos, nos bodos do Espirito Santo, nos bodos nas Beiras. Não esquece os exageros a que o comer e o beber dão aso bem como a mão disciplinadora da igreja para tais desmandos. Não passa por cima das vicissitudes ao longo dos tempos e às questões de disputa de poder: A secularização da sociedade ajuda a perceber muito do que foi acontecendo com estas festas de Alcains e a muitas outras. Se o autor começasse por se centrar nas festas de Alcains, o mais natural era que leitores não alcainenses abandonassem a leitura após pouca páginas. A arquitectura da obra e a sua consistência interna permitem a qualquer leitor compreender estas festas como muitas outras, transpondo para as que lhe são próximas. A parte final da obra interessa sobretudo aos alcainenses e aos curiosos. Mas o livro do Florentino não é só um hino, como venho defendendo. É também uma crítica. Como, assim? Ele não polemiza com ninguém e assume sempre uma atitude conciliadora, amansando exageros sectários e vesgos de alguns estudiosos da religiosidade popular, como Moisés Espirito Santo, ou tentando conciliar visões diferentes como complementares, e não necessariamente antagónicas ou contraditórias. Parece paradoxal: como pode alguém ser crítico sem criticar? Todos nos lembramos de gestos e olhares em que criticámos e ou fomos criticados. O Florentino com a sua obra aponta para uma forma de fazer história local. Quem aponta, no acto de apontar, mostra. Ao fazer desta forma a sua investigação trilha caminhos que recusam as formas afunilantes em que muitos se metem percorrendo caminhos que, de tanto salientar as particularidades e de sublinhar as especificidades, limitam ou inviabilizam a compreensão dos fenómenos sociais, de si, sempre complexos. Roubando o título de uma famosa obra de M. Heidegger (Holzwege), são trilhos que não conduzem a lado nenhum.

Não ignoro que muitos destes historiadores são incensados. Creio que não o são pela história do que escreve, mas pelo autocomprazimento do local e um certo bairrismo bacoco. Confundem o agradável cheiro do incenso com a cortina de fumo que lhes tolhe o olhar. Este afunilamento de tanto manipular o potente zoom centrando-o no local não permite ver a árvore. O grave é que quem não vê a árvore também não pode ver o seu envolvimento ou a floresta onde está inserida.

Voltarei numa segunda parte com outros aspectos e considerações suscitadas pelo livro do Florentino..

Mário Pissarra

 

PS: Este escrito, sem pretensões e ao correr da pena, tem apenas uma intenção; agradecer ao Florentino pelo que me ensinou e tornar os meus agradecimentos a todos os que trabalharam para que o encontro de Castelo Branco fosse possível.

A todos o meu beirão: BEM HAJAM!

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publicado por animo às 10:59
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