O PODER DA ARTE OU A ARTE DO PODER
O nosso amigo Colaço não deixa de me (nos) surpreender. O que mais nele me surpreende e seduz é a sua capacidade artística para dar vida ao que aparentava definitivamente fora de uso. E os objetos, elevados à condição de arte nesta sua nova oportunidade, parecem agradecer ao artista o lugar simbólico que ocupam no seu imaginário e ao interpelarem-nos invadem também eles o imaginário de cada um de nós. Porventura todos os processos criativos são prenhes em simbólico e essa é a matriz que confere coesão cultural e social às sociedades. Mas o Colaço parece desafiar-nos para uma outra dimensão da realidade, o mesmo será dizer que qualquer que ela seja, mesmo quando parece definitivamente arredada do futuro e nos nega a esperança, é passível de transformação. Ao subirmos a ampla escadaria damos de caras com uma moto que parece convidar-nos para uma viagem através dos corredores do Poder ou a entrar na «sala do poder», já que também naqueles salões se decidiu muito do nosso passado e se decidirá ainda muito do nosso futuro colectivo. Essa sua apurada sensibilidade, capacidade de escuta e de observação crítica revelam-nos, através de objetos artisticamente recriados, os poderes de um quotidiano cujo Poder, seja ele qual for, tende a a minimizar e a transformar em inútil, porque receia a força transformadora de um povo que quotidianamente caminha.
A exposição interpela-nos e desafia-nos a que nos interroguemos sobre as várias vertentes e matizes do Poder, porque só assim podemos ser actores de mudança, tal como a balança da (in)justiça, em que somos convidados a equilibrá-la, muito bem simboliza. É um convite, aliás como toda a exposição, ao exercício da cidadania e relembra-nos que também nós somos responsáveis por esse desequilíbrio. Um poder simbolizado no «gravatário», em forma de abanico ou de caravela de vento, talvez para alimentar a esperança de um dia outra chama se reacender ou que outros ventos possam a caravela mover em sentido contrário. Poder, senhor de outros poderes bem mais ocultos, que deixaram este País à deriva - simbolizado pelos barcos e velas – e que tarda em encontrar o seu porto de abrigo.
O poder, seja qual for o seu rosto, deslumbra, corrói, exclui, esmaga, é anti- relacional, anti-comunitário e só quando exercido por pessoas que disso tenham consciência e cimentem a sua autoridade não com base no poder, mas na sua capacidade de com outros inventarem o futuro, recriarem e transformarem a realidade, ele poderá ser criativo e não castrador. Um Poder que tenha a arte e engenho para criar e não a arte da destruição.
Não sei, embora possamos adivinhar, quem será o próximo realizador do nosso destino colectivo, mas a suposta cadeira onde se irá sentar parece já gasta pelo abandono de um Poder sem cultura e, certamente, o seu pano não suportará mais as tropelias do Poder de um polvo cujos tentáculos sufocam o nosso quotidiano.
Esta espécie de crónica fora de tempo, tem como objetivo desafiar-vos a ir até ao Largo do Rato, entrar na sede do poder – também o lugar é simbólico - para aí descobrirem os rostos de outros poderes que o Colaço nos quis mostrar. Não percam tempo, porque janeiro passa rápido e quando derem por ela já o Poder fechou as portas ao quotidiano, esperando que nunca à arte de o exercer.
Um abraço para todos, mas especialmente para o artista. Sejam felizes em seara de gente.
José Centeio
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