Terça-feira, 29 de Dezembro de 2015
SEMPRE ME INTRIGOU O PROBLEMA DO MAL Mário Pissarra revisita Santo Agostinho e deseja Boas Festas

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(Foto Google)

  1. Quando cheguei a Portalegre, em Outubro de 1966, presenciei interessado uma interessante conversa entre o Pe. Américo, pároco da Urra, e os alunos mais velhos. Informava o Pe. Américo que havia recebido uma proposta da Moraes Editores para adiantar dez contos e receberia gratuitamente os livros que viessem a ser publicados. Esta editora viria a ser uma referência para a vanguarda dos cristãos progressistas e politicamente comprometidos a seguir ao Vaticano II. Era seu impulsionador António Alçada Baptista. Fiquei fascinado com a hipótese de ter, com frequência, livros “fresquinhos”. O problema …. Não havia problema nenhum. Nem a sonhar podia pensar em tal verba. Passado pouco tempo, o dr. Marcelino Baltazar, numa disciplina cujo nome já não recordo, propôs-nos a leitura integral do livro, o Personalismo de E. Mounier, editado pela Moraes. Foi a primeira experiência de enfrentar um autor directamente nos seus textos. Experiência rica, mas dura, para quem estava habituado ao ensino de compêndio onde, antes de ter lido uma linha de Kant, já sabia que o seu idealismo transcendental era erróneo, perigoso e falso como defendia a tese 13 do livro adoptado. Os resultados da experiência, se se atender apenas às notas finais, foram calamitosos. Todavia, hoje, só a estreiteza de espírito permitiria tal avaliação.
  2. Sempre que a bolsa o permitia, lá ia comprando livros da Moraes e quase todos me agradaram. A excepção foram dois livros de filosofia: um porque o comprei como sendo de psicologia e era um livro importante da filosofia analítica, mas que eu nem sequer me apercebi que era um livro de filosofia. O outro, uma história da filosofia em dois volumes de J-.F. Revel e, para meu grande espanto, saltava dos gregos para Descartes. Toda a filosofia medieval tinha sido suprimida.
  3. Voltei-me a cruzar com este último autor ao ter outras obras suas: A Revolução Totalitária e Ni Marx ni Jésus. A tese central do primeiro era: a revolução vem da América (USA) e não da URSS. O último título ilustra bem o seu posicionamento quer político quer religioso. Posteriormente, li O monge e o Filósofo, um interessante diálogo entre o filósofo e um monge budista tibetano. O curioso é que o monge, Mathieu Ricard, é filho do filósofo e que tinha à sua frente uma brilhante carreira como científico (trabalhador e investigador) na área da biologia. Abandonou tudo e tornou-se monge. Tive ocasião de apresentar este livro em Abrantes aquando da sua publicação em português. Interessantíssimo. Não sei se é por ser um diálogo com o filho se foi por qualquer outra razão, Jean - François Revel tem uma abertura de espírito bem maior e um ateísmo bem mais mitigado.
  4. Vem isto a propósito da minha incompreensão do salto da sua história da filosofia dos gregos para Descartes, fazendo de toda a Idade Média um deserto filosófico. Mais um que considera este período a Idade das Trevas, pensei para com os meus botões. Longa travessia esta, perdidos na escuridão do obscurantismo religioso até à redescoberta la luz da razão e da ciência com a aurora da modernidade. Nunca mais voltei a pensar no assunto.
  5. Há dias, comprei A Filosofia do Mal de António Marques e quis lê-la ao mesmo tempo que O Mal, homem culpado, homem sofrido de Jerôme Porée. Sempre me intrigou o problema do mal. Decidi revisitar Santo Agostinho sobre este tema. Sempre achei que a história do pecado original, não tinha suporte bíblico e que fora uma engenhosa teoria de Santo Agostinho. A abordagem vivencial deste problema e as lutas de Agostinho contra as heresias do seu tempo ajudam a compreender a solução encontrada. O mal existe e está aí. Não pode ser negado. Deus não pode ser a causa e o responsável pelo mal. Uma natureza corrompida que consegue até contrariar a vontade, como já Paulo havia defendido, foi a solução encontrada. Antes de começar a leitura das duas obras, ambas muito recentes, em boa hora decidi revisitar Santo Agostinho.
  6. E, foi ao tropeçar com a frase nisi credideritis, non intelligetis (se não acreditardes, não compreendereis), que se fezluz e compreendi o salto de J.-F.Revel. E não só. O que está aqui em causa, entre outras coisas, são dois problemas com que me debati inúmeras vezes: o que é a filosofia e a possibilidade de uma filosofia cristã. Não me vou debruçar sobre nenhum dos problemas.
  7. Com Descartes inicia-se um estilo de filosofar em que metodicamente se procura demonstrar racionalmente a verdade. A verdade é um resultado que advém do uso metódico da razão. Ora o cristianismo aceita a verdade logo no início. É lhe dada pela fé, pois foi revelada por Deus. É preciso crer para que se possas compreender. Atalhando terreno, a questão é saber: a revelação pode ter lugar no pensamento estritamente filosófico. Nova descoberta: é da resposta a esta pergunta que ganha uma nova inteligibilidade a concepção da filosofia como «ancilla» da teologia.
  8. Se seguirmos o conselho de Hans Küng na sua obra, O Cristianismo - Essência e História, em vez de história da filosofia falarmos de história do pensamento, então os pensadores marcantes da Idade Média, continuam a ser gigantes que permitem a muitos pigmeus como nós, ver mais longe.

Mário Pissarra

Com os votos de um Novo Ano com saúde e bem-estar para todos.

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publicado por animo às 00:56
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