Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014
VIOLÊNCIA NO ECRAN escreve José Centeio

Caro Colaço,

Envio-te um texto que publiquei há já alguns anos na revista do Metanoia (http://www.metanoia-mcp.org/mmcp/ ), mas que mantem toda a atualidade. Agora, ao revê-lo, pareceu-me ser interessante para a ANIMUS.

Os avós, como tu, têm um papel importante na redescoberta de outros jogos e de outras ocupações, tal como outrora tiveram os nossos avós em nós. Pelo menos para aqueles que tiveram essa sorte.

Um grande abraço,

 

José Centeio

Sejam Felizes em Seara de Gente

 

 

VIOLÊNCIA NO ECRÃ

 

Em finais dos anos 60 Philiph K. Dick, escritor de ficção científica, escreveu um livro no qual um simples jogo de computador se transformava numa poderosíssima arma contra os inimigos. O jogo consistia de um labirinto no meio do qual se encontrava um animal que se tentava libertar. A pessoa tornava-se de tal forma dependente e a sua angústia assumia grau tão elevado, que ia inconscientemente interiorizando o comportamento do animal no labirinto, acabando por perecer diante da impossibilidade da libertação.

Dir-me-ão, os mais renitentes ou os amantes incondicionais dos jogos, que se trata apenas de ficção científica. Mas não terão os livros de ficção científica, para além do gosto estético e da opinião de cada um, o condão de nos alertarem para alguns dos eventuais caminhos que o nosso futuro possa vir a trilhar?! Eles são comparáveis a um espelho curvo que deforma a imagem do nosso futuro, embora continue a ser ainda e sempre a imagem dele próprio.

Ainda neste domínio, mas tratando-se agora da dura e crua realidade e não de ficção científica, na Alemanha alguém se lembrou de introduzir numa rede de computadores, um jogo cujo objetivo primeiro era eliminar judeus. Este caso alerta-nos para o problema de controlo destes meios, mas sobretudo para as formas de defesa do próprio consumidor.

Pessoas atentas a esta realidade têm chamado a atenção para o facto de as crianças viciadas em jogos de computador perderem a noção de bem e de mal. A vida passa apenas a ser um jogo em realidade virtual. Se é verdade que as crianças se habituam a decidir rapidamente - adquirem um poder de decisão quase instantâneo - por outro lado, também não é menos verdade que elas não medem o alcance das suas decisões, muito menos as suas consequências. As fronteiras valorativas deixam de existir, porque tudo, mesmo a própria vida, não passa de um jogo.

A maioria dos jogos de computador não só encerram em si mesmos uma grande dose de violência como arrastam consigo um outro tipo de violência - dependência e (des) construção da personalidade. E não se deve esquecer que os jogos se tornaram, dentro do meio informático, num dos negócios mais rentáveis.

Neste fim de século cibernético, mesmo a nível da informação, o peso da televisão torna-se cada vez mais relativo. Através das redes de computador podemos ter acesso a informações laterais/marginais não filtradas pelos critérios jornalísticos - tão objetivos quanto subjetivos - , nem pelos interesses das agências noticiosas. Por outro lado, a internacionalização deste meio e o seu fácil acesso - via satélite ou via cabo - torna impensável, num determinado espaço, qualquer definição de critérios de controlo. Sem esquecer o vídeo!...

Pelo já exposto, parece não ser difícil chegar à conclusão de que tem hoje muito pouco sentido falar de violência na televisão e fazer disso uma luta tenaz contra os poderes instituídos. Mas terá todo o sentido falar em «violência no ecrã», envolvendo a expressão todos os meios que usam o ecrã como veículo de transmissão: televisão, computador, vídeo... Parece-me anacrónica a ideia de lutar contra os meios em si, quando a estratégia seria antes e sobretudo agir junto dos potenciais consumidores.

A estratégia, a única que pode resultar, é aquela que encara estes meios como fazendo parte do tempo que vivemos e nos permita através deles descobrir novos rumos que levem à procura e conquista da felicidade individual ecoletiva. Trata-se, resumindo, de proporcionar os meios adequados para que cada um organize as suas próprias defesas, ou seja, que cada um tenha a possibilidade de ir construindo a sua própria consciência crítica, o seu verdadeiro espaço de liberdade.

Desta estratégia a escola deveria ser o núcleo. Seria importante que todos estes meios fossem introduzidos no ensino, desde muito cedo e em todas as suas vertentes: lúdica, utilitária, social e filosófica. Que os programas sobre estas matérias tivessem em conta não só a perspetiva utilitária, mas também e sobretudo uma perspetiva de sociedade: refletir sobre as próprias sociedades construídas a partir destes meios. Se temos dos meios apenas uma visão utilitária, sentir-nos- sentir-nos-emos castrados e impossibilitados de perceber as relações que se vão tecendo entre os próprios meios, as pessoas e a sociedade no seu todo. Porque, não tenhamos dúvidas, eles vão alterar profundamente a nossa vida individual e a nossa relação com a sociedade, nomeadamente, as relações humanas e laborais. Saibamos ser felizes neste labirinto que teima em nos roubar a liberdade de SER.

Loures, 13 Abril 1996

(Texto publicado na Crónica «Tempo Presente», revista Viragem nº 22, Abril-Junho 1996, propriedade do Metanoia- Movimento Católico de Profissionais).

 

 



publicado por animo às 22:47
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Junho 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
14
16
17
18

19
20
21
22
23

26
28
29


posts recentes

ANIMUS DE LUGAR DE ENCONT...

ESTÁ TUDO DITO

ANIMUS O FIM há sete anos...

VEM AÍ A "ANIMUS SEMPER" ...

ANIMUS SEMPER escreve ant...

comasalpcb@gmail.com O E...

O RESPEITO NÃO SE DECRETA...

DAS ELIMINAÇÕES A CAMINHO...

ESTE BLOG TERMINA NO FINA...

NUNCA ACEITAREI REGRAS SA...

arquivos

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

links
subscrever feeds