Terça-feira, 19 de Agosto de 2014
ZECA ANDRÉ O SALTO PARA A LIBERDADE EM 1972escreve o próprio Zeca André

 

21 de Julho de 1972 - 4 h da manhã
Fuentes de Oñoro

Saí de Alcains por volta da meia noite e envolvi os meus pais nesta tremenda situação, pois queria ir para França, país que em segredo sabíamos que acolhia os refratários, desertores ou simplesmente pessoas que queriam melhorar as suas vidas. Os meus pais tinham emigrado um ano antes para esse país e exposta a minha situação sem recuo possível, temerariamente aceitaram correr o risco apesar do raspanete da ordem ao qual não escapei. Lá se fora o sonho dos meus pais, a minha mãe queria que fosse padre, o meu pai militar de carreira, como o Capitão Ramalho Eanes ícone de Alcains. Mas enfim, aceitou cobrir-me. Na véspera tínhamos combinado com o "passador" para estar estar na fronteira de Vilar Formoso ás 8 h da manhã, hora da abertura da fronteira.

Esse passador, que não o era em boa verdade,foi um herói, quando lhe expus a minha situação e porque vivia na mesma localidade em França que os meus pais de quem eram amicíssimos, de imediato e sem hesitar aceitou levar-me, interrompendo as suas férias. Tinha uma carrinha boca de sapo Citroën DS de 7 lugares e lá apareceu à hora marcada com a sua esposa e filha de três meses. Do nosso lado éramos 5 pois além dos meus pais, ia o meu irmão mais velho que tinha exemplarmente cumprido os seus "deveres" militares e que em homem livre queria ir trabalhar para França e a minha irmã mais nova que coitada não compreendia nada do que se passava á sua volta.

Saímos portanto á meia noite, o meu cunhado levou-nos para Vilar Formoso pela estrada esburacada do Sabugal mais discreta que a da Covilhã e Guarda. Chegamos às duas da manhã e a partir desse momento começa verdadeiramente o drama a tramar-se. Parámos a uns 500 metros da fronteira, o meu pai e o meu irmão foram ver o ambiente e tudo parecia calmo. Resolvemos pôr-nos em ação. Os três fomos à estação da CP e nem vivalma, caminhamos ao longo da linha e atravessámos a fronteira e de imediato fui refugiar-me numa retrete pública onde me tranquei á espera das oito horas.
E aí estou eu sozinho, cheio de medo, cada barulho era suspeito, só tive um pouco de companhia com o ladrar dos cães e o chilrear dos pardais que como a natureza acordavam para um dia banal. E as horas pareciam séculos e cenários macabros desfilavam na minha mente e se fosse preso? A PIDE estava do outro lado da fronteira e colhiam-me como um criminoso e o que me esperava era fácil de adivinhar, interrogatórios, tortura, prisão, tropa e...guerra colonial.
Depois afastava essa idéia e outra tão sinistra me aparecia, o que vai ser de mim no exílio, em que área vou trabalhar? Como vai ser a minha vida com os meus pais, confrontados com a situação de que nunca mais poderia regressar a Portugal enquanto o fascismo governasse em Portugal? Para eles o governo era tão forte e o Marcelo Caetano tão bom que nunca mais mudaria a situação em Portugal.
 Enfim estes filmes desfilaram várias vezes e o tempo lá foi passando até que as 9 badaladas tocaram no sino da igreja de Fuentes de Oñoro (8h em Portugal).
O ritmo cardíaco acelerou e os minutos pareciam horas, tinha que me conformar que a 500 metros dali estavam lá a minha gente a cumprir as formalidades da ordem, controlo e carimbo dos passaportes e que, se Deus quisesse, iam aparecer de um momento para o outro. Entretanto á minha volta já havia animação e as pessoas utilizavam os WCs e iam-se embora naturalmente.
Até que o toque combinado bate à porta. Pai?  Sim, Ouf !...
Toca de entrar no carro e por-nos a milhas para nos afastarmos do perigo. Parámos uns 20 kms mais além para travar conhecimento com a generosa família e comer uma bucha porque o nervoso miudinho tinha provocado uma fome de desesperado.
Francisco Louro de Sangalhos, Mealhada, Globo trotter destemido, ajudou muito a distender o pesado ambiente a bordo, ele que fora ex-comando em Angola, tinha passado por pior. O que interessava era atravessar a Espanha de Franco, pois os carabineiros se me apanhassem, entregavam-me manu militari á polícia do outro lado e sabemos bem qual era. A viagem de 600 kms até ao outro lado de Espanha decorria com a maior normalidade, a minha mãe não  parava de rezar o terço, cada um lá dizia das suas larachas e de vez em quando avistavam-se uns carabineiros a controlar o trânsito e quer queiramos quer não o receio aparecia, mas logo a  seguir a tensão voltava ao normal. Passamos por Salamanca, Valladolid, Tordesillas (aí lembrei aos viajantes que naquela cidade se assinou o tratado de Tordesillas que dividiu o mundo em duas partes, uma para Portugal e outra para a Espanha) nesse tempo não precisávamos da Tróika. Burgos, Vitória e os Pirinéus foram alcançados e chegámos a Irun por volta da meia noite. E agora? Outro bico d'obra. Como vamos fazer para passar a fronteira sem passaporte? Esconder-me no carro, mas eles têm lanternas, ver-me-iam sem dificuldades, enfim a fila de carros foi avançando e nenhuma solução à vista.

O destino encarrega-se de fazer bem as coisas. A Gendarmerie manda-nos parar, pede-nos os passaportes, o Xico Louro entrega os passaportes que recolhera, isto é 7, contam os 7 passaportes sem os abrir, contam as cabeças que viram e  confirmaram 7 e mandam-nos seguir. Mas na realidade éramos oito pessoas, não viram que tínhamos escondido a bébé de 3 mesitos a Teresinha. Mas como esta já tinha passaporte, foi a minha sorte. Passei com um passaporte de bebé  como costumo contar a quem quer ouvir a minha história.

E aí estou em França, país reputado humanista e acolhedor com a certeza de que pelo menos já não corria o risco de ser entregue á polícia portuguesa. Hendaye, a mítica Hendaye para vários milhões de portugueses, sinônimo de liberdade, de esperança e de nova vida.

Esta foto data do 8 de maio de1972, no dia do meu 19º aniversário, dois meses antes de me ter exilado para França.

O 3º episódio fica para mais tarde, assim o suspense continua.

 

Zeca André



publicado por animo às 13:15
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